Não tenho dúvida que
abril é o mês da cultura no Amazonas. Muita gente acha que nosso
Estado só tem o boi de Parintins, mas eu sempre digo para meus
amigos de outros estados, se quiserem conhecer o Amazonas em um
período de eferverscência cultural venham em abril. Sexta-feira
passada foi a abertura do XVI Festival Amazonas de Ópera, com a
ópera Lulu, a maior montagem deste ano, pela primeira vez no Brasil
e cantada em alemão. Li em uma matéria ótima do repórter e amigo
Jony Clay que tem uma chuva cênica na ópera, que ainda pretendo
assistir neste fim de semana. Porém, na estreia da ópera I
Puritani, que presenciei na quarta-feira passada, uma chuva nada
artística me colocou um pouco pra baixo.
Eu toda empolgada,
comprei os ingressos mais caros na plateia, nas cadeiras G02 e G04,
bem no meio, e fui com minha mãe assistir a ópera de Vicenzo Belini
no Teatro Amazonas. Qual não foi minha surpresa ao sentir pingos
caindo na minha cabeça. “Meu Deus, está chovendo dentro do Teatro
Amazonas!”. Mas não foi só em mim, o senhor que estava ao meu
lado também reclamou. Tudo isso para piorar aquele frio de rachar na
plateia do Teatro, para o qual realmente eu não fui muito bem
preparada. Mas calma, as coisas sempre podem piorar e pioraram. No
intervalo, fui até a cafeteria La Gioconda, que fica dentro do
teatro, tomar um café para me esquentar. Acreditem, a cafeteria não
tinha café, nem sequer água quente para fazer um chá. Eu e um
monte de turistas - afinal o festival é predominado por eles -
ficamos passados. Pra completar ainda mais a tragédia operística da
falta de cuidado, infraestrutura e mão-de-obra especializada para o
turismo no nosso Estado, presenciei a coitada de uma turista
dinamarquesa tentando, com seu Português “Por favor -obrigado”,
misturado com inglês, pedir um salgado de frango. O atendente dizia
“Carne ou frango?”. E ela respondia “Chicken”. Foi preciso eu
chegar e intervir: “Querido, chicken é frango, dá um salgado de
frango pra ela!”. É claro, ela me agradeceu imensamente e começou
a puxar conversa. Particularmente não acho que todo mundo tem que
falar inglês, não gosto muito dessa língua, aprendi mesmo por
necessidade, mas como dizem “Véio, na boa?”, o Teatro Amazonas é
o maior ponto turístico do nosso Estado e precisa sim ter pessoas
que pelo menos falem um inglês básico para atender os turistas.
Fiquei com vergonha mesmo. Lembrei de uma matéria ótima da época
que eu era subeditora de Cidades do A Crítica, quando os repórteres
Victor Afonso e Mellanie Hasimoto se passaram por turistas, foram em
diversos pontos de Manaus e constataram essa falha. Já faz mais de
um ano e meio e o que mudou? Nada!
Mas tudo bem, espero
sinceramente que consertem as goteiras do Teatro Amazonas; espero
sinceramente que o atendimento em geral e não só ao turista mude e
melhore na minha cidade. Mas tirando os problemas, no geral gostei da
montagem de I Puritani desse XVI FAO. A soprano que interpretou a
Elvira é ótima, muito segura, um show à parte. Não gostei muito
do tenor que fez o Arthuro, voz extremamente anasalada, chata, mas
não foi de todo seu mal. O cenário com partituras e notas musicais
estava um espetáculo, era branco quando tudo ia bem e tornou-se
negro quando a história ficou trágica, lindo demais. Os lustres
lindos também. O coral do amazonas e a orquestra também impecáveis.
Dá gosto de ver entre os integrantes vários artistas amazonenses
participando de um espetáculo maravilhoso como este e fazendo
bonito.
Perguntei à
dinamarquesa, que devia ter no máximo 23 anos, o que ela tinha
achado do espetáculo e ela respondeu que era a primeira vez que
assistia a uma ópera. Ficou encantada e estava achando muito bonito.
No final, acho que é isso que realmente importa. Críticas - sempre
construtivas - à parte, com certeza a beleza da junção de todas as
artes que só a ópera proporciona é muito maior que todo o resto.
Espero que esse espetáculo continue encantando cada vez mais pessoas
por anos e anos. E que fique cada vez melhor!
