quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Dia do Professor,

Esta data quase esquecida me remeteu a um tempo de memórias boas e ruins. Lembrei da Tia Helena, minha primeira professora, que me alfabetizou, me ensinou a juntar os "be a bás" com os "ca ce cis". Lembrei das cartilhas totalmente descontextualizadas com a nossa realidade, que tinham a figura de "girafa" na letra "G", em vez de "gavião real", ou algo mais tangível para a percepção de uma criança nascida no estado das águas. Pensando na atualidade, rememorei ainda do vazamento da prova do Enem e da matéria que li do Leandro Prazeres, de que a educação das crianças amazonenses vai de mal a pior.

Engraçado, sempre tive fama de boa aluna e acho que devo isso ao fato de meus pais terem me colocado na escola já com quase seis anos, após brincar bastante e curtir muito a minha infância. Eu via tantos coleguinhas mais novos e mais adiantados que eu que já entrei na escola achando que tinha de correr atrás do prejuízo e me esforçar muito. Mas não só isso, desde muito cedo a leitura fez parte da minha vida.

Nesta data gostaria muito de homenagear algumas pessoas importantíssimas, que me ajudaram como pessoa e profissional. A primeira pessoa que quero homenagear é minha mãe, minha eterna professora. Acredito que uma vez professor, sempre professor. Minha mãe iniciou a vida como professorinha, após concluir o magistério no Instituto de Educação do Amazonas. E, hoje, quase por se aposentar, ela retornou para a escola, onde está desenvolvendo um trabalho maravilhoso como pedagoga.

Não posso esquecer também da dona Rosalina, mãe da minha amiga Cila, que mesmo com seu jeito sério e muitas vezes temido por alguns alunos, fez esta humilde jornalista se encantar pela antiguidade, viajar pelas ilhas gregas, nos mares Egeu, Jônio e navegar pelos navios Persas.

Como esquecer do professor Dalmir, da Escola Técnica, aquela pessoa tão crítica, que incitava seus alunos a pensarem de maneira a contestar as diferenças regionais, as injustiças sociais, e também questionarem a si mesmos, por apenas estarem “seguindo a boiada”, sem se perguntarem o por quê de tudo.

Por fim, não posso esquecer mesmo de dois professores maravilhosos da faculdade, que foram responsáveis por meu amadurecimento profissional. Professor Narciso, eterno militante, o senhor sabe o quanto lhe devo. Não pelos textos, ou pelas aulas, não foi só isso, pois o senhor nunca foi do tipo de colocar idéia nenhuma na cabeça de ninguém. Mas por ter sido um eterno ourives, com tamanha paciência e calma, para que eu mesma fosse aos poucos me lapidando. Esse texto com certeza é para o senhor, que onde estiver deve estar me sorrindo agora. E minha mestra Ivânia Vieira, você que sempre me deu tantos incentivos, sabe que esta homenagem não poderia nunca deixar de ser sua.

Parabéns a todos os professores, figuras imprescindíveis na construção de uma sociedade melhor. A vocês todos o meu respeito e minha admiração.
Convido a todos que lerem esse texto para fazerem um comentário a respeito de um professor que marcou suas vidas.

segunda-feira, 5 de outubro de 2009

Passeio no bosque

Fotos: Anderson Santos

O aquário dos peixes-boi, principal atração Macaquinhos de cheiro descansando

Cutia se alimentando nas trilhas do bosque





Um dos últimos recantos onde é possível ter contato íntimo com a natureza dentro do perímetro urbano de Manaus é no Instituto Nacional de Pesquisas da Amazonia. No último final de semana, estive no Bosque da Ciência do Inpa, que possui uma área verde de mais de 13 hectares.



Lá é possível observar espécies nativas de primatas, preguiças, tartarugas, araras e cutias, que vivem livremente e parecem até acostumadas com a presença humana. Além desses animais, é possível também observar de perto o peixe boi, espécie muito estudada pelos biólogos do instituto. O mamífero ameaçado de extinção adaptou-se plenamente ao cativeiro e, graças aos cuidados recebidos, conseguiu até mesmo se reproduzir no local.


Fazia muito tempo mesmo que não ia ao Inpa, lembro de ter ido ainda criança e ter ficado impressionada com os besouros empalhados e também com a maior folha da Amazônia, que pode ser vista na "Casa da Ciência".


Outra curiosidade que pude ver de perto foi o Candiru, um verdadeiro ícone dos rios da região amazônica. Esse peixe, menor que a cabeça de um dedo mindinho, tem uma fama terrível no interior do Estado, pois ele é atraído pela urina humana e entra nos orifícios dos banhistas, causando um verdadeiro estrago ao abrir suas barbatanas, como ganchos.


Por fim, vi o Poraquê, uma espécie de enguia elétrica de água doce. Soube que a Petrobras está realizando estudos com esse peixe. O guia do Inpa explicou que quando ele solta a descarga elétrica no rio em algum lugar onde houve vazamento de óleo, o óleo é levado para a beira. A natureza é mesmo fantástica!!



Depois desse "banho de ciência", pude eu e os meus acompanhantes tomarmos um sorvete maravilhoso. Recomendo o de açaí. Quem estava comigo disse que adorou.




PS: A entrada para o Bosque da Ciência custa R$ 5 (cinco reais). Ele está localizado na Avenida André Araújo, próximo à Bola do Coroado, em Manaus.


Se quiser saber mais e conhecer detalhadamente as atrações, acesse http://www.inpa.gov.br/ no link Bosque da Ciência.

terça-feira, 22 de setembro de 2009

Música e amigos: melhores presentes

Foto da capa do CD "Minha Palavra", de Alexandre Leão



O legal de trabalhar em obra, em contato com pessoas de várias partes do País é o intercâmbio cultural. Eu, por exemplo, adoro a diversidade do meu Brasil, seus sotaques, paisagens, costumes diferentes.

Eu tive a sorte de na obra passada conhecer uma das primeiras Inspetoras de Duto do Brasil, minha amiga Walquíria. Uma alagoana arretada, mãe de um casal de filhos lindos e que tem um gosto musical e literário apuradíssimo. Infelizmente convivemos pouco, mas o suficiente para nos identificarmos demais e criarmos um vínculo de amizade sincera.

Aqui em Coari, tornei-me amiga de uma médica sem igual, a dra. Ivany. Tivemos uma identificação imediata, mas o engraçado é que eu quando falavam “Você vai conhecer a doutora Ivany”, logo quando cheguei na empresa, imaginava uma senhora chata, cheia de não me toques, não sei por quê. Como a gente esteriotipa algumas figuras, não é mesmo? Apesar da amizade com algumas pessoas da área médica, ainda vejo essas figuras um tanto quanto desumanizadas.

Mas a Ivany está longe disso. Ela é humana até demais. Na verdade, ela traduz o perfil de médico que eu idealizo. Muito humana, dedicada...enfim, mas eu estava falando da amiga e do intercâmbio. Ontem ela me deu um CD de um cantor e compositor chamado Alexandre Leão, de Salvador. Não conhecia o trabalho dele não. O CD é “Minha Palavra”, parece que é o primeiro CD dele e tem 12 faixas.

Passei a tarde ouvindo no escritório, muito bom o CD. Ele tem uma voz bacana, clara, e a música dele é muito boa. Aliás, o CD inteiro é de composições próprias com algumas parcerias. Fiquei até com vontade de conhecer mais o trabalho dele.

Até me animei mais após ganhar esse CD. Sabe, eu gostaria de estar mais em contato com a música por aqui. Acho que eu preciso mesmo voltar a cantar com mais freqüência. É muito complicado, porque eu gostaria muito de poder fazer um trabalho mais autoral. Cantar músicas minhas, de meu pai e de meu avô. Quem sabe...Enquanto sonho o sucesso sulista, continuo a viver no Porto de Lenha e no Porto de Gás, que nunca serão Liverpool!


PS: O candidato da oposição ganhou as eleições aqui em Coari. Foi a revolta nas urnas. Torçamos para que as coisa melhorem para o povo daqui.

domingo, 20 de setembro de 2009

Eleições suplementares em Coari

"Motoata" do candidato da oposição em Coari


Na terra do gás natural, onde vários prefeitos já entraram pelo cano, hoje haverá mais uma votação para decidir quem vai administrar a segunda economia do Amazonas. Ontem houve carreata- que pela predominância de motos deveria se chamar "motoata"- de um dos candidatos, o da situação. A manifestação foi marcada por muito tumulto, um mototaxista me disse que atropelaram uma grávida que está entre a vida e a morte e houve também muitas brigas de rua.

Ao olhar o movimento, não achei a manifestação muito expressiva, em quantidade de pessoas, comparando à "motoata" do candidato da oposição, ocorrida dois dias antes e que parou a cidade. Acredito que isso é expressão da revolta do povo contra os podres dos governos dessa cidade (pedofilia, desvio de dinheiro público, etc e tals). Mas não sei, dizem que aqui tudo é possível e que o interior decide bastante.


Hoje pela manhã fui ao posto comprar um iogurte para ingerir minha quantidade de glicose matinal e verifiquei o movimento das pessoas em direção às urnas. É engraçado ver no interior, como algumas pessoas se arrumam para ir votar. Reparei num senhorzinho engraçado, todo "na beca", de calça de linho e camisa de manga verde, bem roupa de domingo para cumprir o dever
cívico.

O fato é que eu nunca vi um povo tão fanático por política quanto o de Coari. As pessoas se pintam da cabeça aos pés com as cores do candidato. As mulheres fazem brincos com os números, pintam as unhas com as cores, saem na rua com bandeiras, os sons dos carros, meu Deus, prefiro não comentar...
As cores dos dois candidatos mais fortes são azul e vermelho, as mesmas dos dois bumbás de Parintins e para os eleitores tudo parece uma festa. A vida deles literalmente depende disso. Ao mesmo tempo é um povo tão sofrido, com uma cidade que tem tanto dinheiro e se afunda no lixo e nos buracos, na educação precária, apesar das dezenas de escolas com infraestrutura faraônica. Pena.


Esta semana conversei com a líder comunitária de Inajá, a dona Elaine. Ela me falou que as crianças estão há dois meses sem estudar por conta do atraso do pagamento do salário e do benefício dos professores da zona rural. Além disso, ela afirmou que os catraieiros (que trazem em catraias os estudantes das comunidades mais afastadas) também estão sem receber há mais tempo.

É verdade que a justiça bloqueou as contas do município, mas essa situação de atraso nos pagamentos é recorrente no interior do Amazonas. Imagina um comunitário que vem de rabeta, atravessa um lago enorme e perigoso para ver se o pagamento caiu, e nada! Nem previsão! Eu não sei o que faria no lugar dessas pessoas.


Em Caapiranga, cidade próxima de Manacapuru, ano passado vivenciei isso. As pessoas faziam fila na porta da Prefeitura e nada. Lá o prefeito até sumiu com o dinheiro dos servidores. "Ah, isso acontece porque é longe, porque é afastado, porque o Amazonas não é Brasil..." São tantos os absurdos que a gente ouve.

O fato de um ex-prefeito - acusado de pedofilia entre tantas outras coisas - ter sido preso já pode ser considerado um avanço. Quanto às eleições suplementares de Coari, só posso desejar a esse povo melhor sorte com o próximo governante.


Há mais ou menos um ano e meio minha vida profissional mudou completamente. De uma repórter de jornal diário, passei a trabalhar com comunicação social em um sentido bem mais amplo, na maior obra de duto em construção no Brasil atualmente, o gasoduto Urucu-Manaus. O interressante é que eu jamais me imaginei trabalhando em uma obra dessa grandiosidade, longe de casa por dias mas também longe do meu exercício diário da escrita, que me faz uma falta enorme por aqui.

A vida de um Comunicador Social em obras envolve, entre tantas coisas, avaliar os impactos causados pelo empreendimento na vida das pessoas da região e traçar estratégias para reduzir esses impactos. É algo muito amplo. Ao mesmo tempo em que concentro-me em meu trabalho, o qual tento desempenhar da melhor maneira possível, passam-se tantas histórias ao olhar. Algumas dessas histórias eu divido aqui, nesse espaço, direto da floresta.


Boa leitura!