domingo, 20 de setembro de 2009

Eleições suplementares em Coari

"Motoata" do candidato da oposição em Coari


Na terra do gás natural, onde vários prefeitos já entraram pelo cano, hoje haverá mais uma votação para decidir quem vai administrar a segunda economia do Amazonas. Ontem houve carreata- que pela predominância de motos deveria se chamar "motoata"- de um dos candidatos, o da situação. A manifestação foi marcada por muito tumulto, um mototaxista me disse que atropelaram uma grávida que está entre a vida e a morte e houve também muitas brigas de rua.

Ao olhar o movimento, não achei a manifestação muito expressiva, em quantidade de pessoas, comparando à "motoata" do candidato da oposição, ocorrida dois dias antes e que parou a cidade. Acredito que isso é expressão da revolta do povo contra os podres dos governos dessa cidade (pedofilia, desvio de dinheiro público, etc e tals). Mas não sei, dizem que aqui tudo é possível e que o interior decide bastante.


Hoje pela manhã fui ao posto comprar um iogurte para ingerir minha quantidade de glicose matinal e verifiquei o movimento das pessoas em direção às urnas. É engraçado ver no interior, como algumas pessoas se arrumam para ir votar. Reparei num senhorzinho engraçado, todo "na beca", de calça de linho e camisa de manga verde, bem roupa de domingo para cumprir o dever
cívico.

O fato é que eu nunca vi um povo tão fanático por política quanto o de Coari. As pessoas se pintam da cabeça aos pés com as cores do candidato. As mulheres fazem brincos com os números, pintam as unhas com as cores, saem na rua com bandeiras, os sons dos carros, meu Deus, prefiro não comentar...
As cores dos dois candidatos mais fortes são azul e vermelho, as mesmas dos dois bumbás de Parintins e para os eleitores tudo parece uma festa. A vida deles literalmente depende disso. Ao mesmo tempo é um povo tão sofrido, com uma cidade que tem tanto dinheiro e se afunda no lixo e nos buracos, na educação precária, apesar das dezenas de escolas com infraestrutura faraônica. Pena.


Esta semana conversei com a líder comunitária de Inajá, a dona Elaine. Ela me falou que as crianças estão há dois meses sem estudar por conta do atraso do pagamento do salário e do benefício dos professores da zona rural. Além disso, ela afirmou que os catraieiros (que trazem em catraias os estudantes das comunidades mais afastadas) também estão sem receber há mais tempo.

É verdade que a justiça bloqueou as contas do município, mas essa situação de atraso nos pagamentos é recorrente no interior do Amazonas. Imagina um comunitário que vem de rabeta, atravessa um lago enorme e perigoso para ver se o pagamento caiu, e nada! Nem previsão! Eu não sei o que faria no lugar dessas pessoas.


Em Caapiranga, cidade próxima de Manacapuru, ano passado vivenciei isso. As pessoas faziam fila na porta da Prefeitura e nada. Lá o prefeito até sumiu com o dinheiro dos servidores. "Ah, isso acontece porque é longe, porque é afastado, porque o Amazonas não é Brasil..." São tantos os absurdos que a gente ouve.

O fato de um ex-prefeito - acusado de pedofilia entre tantas outras coisas - ter sido preso já pode ser considerado um avanço. Quanto às eleições suplementares de Coari, só posso desejar a esse povo melhor sorte com o próximo governante.

Nenhum comentário:

Postar um comentário